25/03/2006 - 15h11min
O poeta do concreto e do eletrônico
No final do ano passado, em um show poético-musical comandado por seu filho Cid Campos, em Brasília, o poeta concretista Augusto de Campos botou literalmente pra quebrar, fazendo com que cerca de 1.500 jovens que foram assisti-lo ao lado de Arnaldo Antunes, do poeta videomaker Walter Silveira, da bailarina de vanguarda Soraia, e do próprio Cid, se sacudissem ao som de um minissoneto de Rimbaud, que na versão augustiana ganhou uma gostosa sonoridade rap-funk-hip-hop. No final do show, ele mais uma vez surpreendeu fazendo uma performance com uma versão eletromusical-caótica-sinfônica do seu poema Cidade-City-Cité, com duração de quase 10 minutos. Nesta entrevista, Augusto de Campos, 75 anos, fala dos 50 anos da 1ª Exposição de Poesia Concreta, realizada em dezembro de 1956 em São Paulo, da saudade e das parcerias com seu irmão Haroldo de Campos, falecido há quatro anos, e conta que no dia 11 de setembro de 2001, quando a Al Qaeda derrubou as torres gêmeas em NY, estava em Genebra, na Suíça, participando de um Festival de Poesia Experimental, e estava na programação a apresentação do seu Poema Bomba.
 
Cultura – Há 50 anos realizava-se em São Paulo a 1ª Exposição de Poesia Concreta Brasileira. De lá pra cá, você, Haroldo de Campos e Décio Pignatari criaram uma poesia brasileira, com linhas nacionais e internacionais. Olhando para trás, qual sua impressão? Olhando para frente, quais suas expectativas?
 
Augusto de Campos – Não me sinto à vontade para auto-avaliações. Fizemos o que podíamos fazer. E que achávamos que devíamos fazer. O tempo e os outros que vêm vindo e hão de vir é que irão dizendo se fizemos bem ou mal. Mas vou tentar passar com objetividade algumas impressões sobre o tema da sua pergunta. Posso dizer que, para mim, a experiência da poesia concreta foi, e tem sido, muito rica, embora cheia de arestas e riscos. Os anos 50 foram densos de informação nova e vitalidade nas artes: época dos primeiros museus modernos – em São Paulo, o MASP e o MAM, as Bienais, a Escola Livre de Música (Koellreuter, Boulez), os LPs de Webern, Schoenberg, Berg, Varèse e Cage, os suplementos culturais dos jornais, então exuberantes de novidades literárias – aqui, o do Diário de S.Paulo, dirigido por Geraldo Ferraz e Patrícia Galvão, o Diário de Notícias, o Jornal de São Paulo, no Rio o Diário Carioca (onde Sérgio Buarque de Holanda exercia a crítica literária), o suplemento Letras e Artes, de A Manhã, e outros. A Exposição Nacional de Arte Concreta foi aberta em São Paulo em dezembro de 1956. Em fevereiro, em pleno carnaval, transferiu-se para o saguão do Ministério da Educação no Rio, onde a repercussão foi intensa, como registrou a revista O Cruzeiro (“O rock & roll da poesia”). Mas enfrentamos um bombardeio análogo ao dos modernistas de 22. O arco da rejeição pode ser definido, por dois extremos. Os que diziam, como Ledo Ivo, que “precisávamos de um bom curso primário” e os que achavam, como José Lins do Rego, que necessitávamos era de “um banho de burrice”. Depois, foram chegando os poucos apoios prestigiosos: João Cabral, Murilo Mendes, Cassiano Ricardo. No exterior, multiplicaram-se as exposições e antologias de poesia concreta. Mas confesso que não tenho idéia precisa do que virá. Eu me movo no âmbito da poesia digital. Sou um entusiasta da tecnologia e dos computadores.
 
Cultura – Quando foram elaborados os fundamentos da poesia concreta, nos anos 50, você imaginava que esse tipo de linguagem serviria para os novos suportes de comunicação, como a animação computadorizada, a música eletrônica, a digitalização da publicidade, o clip televisivo, etc?
 
Augusto de Campos – Havia informação e intuição em nosso trabalho. Décio foi um dos primeiros intelectuais a falar em cibernética, e foi também o introdutor da semiótica peirciana e da teoria da informação no Brasil. Haroldo falou de “obra de arte aberta” antes de Umberto Eco. E no prefácio aos meus poemas em cores da série Poetamenos (1953) eu dizia: “luminosos ou filmletras, quem os tivera?”, imaginando a projecão cinética de palavras em luz e cor. A música eletrônica surgiu também em meados de 50 (embora poucos a conhecessem naquela época). A poesia concreta estava sintonizada com essas prospecções tecnológicas. Para a maioria dos literatos brasileiros, ciência, tecnologia, matemática eram vistas com desconfiança, como coisa desumana. Nós não tínhamos esses preconceitos. Quando os computadores chegaram, foi só deitar e rolar.
 
Cultura – Ao longo desses 50 anos, o exercício da tradução foi uma constante na sua vida. Mallarmé, e.e. cummings, Ezra Pound, Maiakóvski e a poesia russa só para citar alguns. A criação disso foi algo planejado ou só agora, 50 anos depois, vocês estão se dando conta desse serviço prestado à linguagem?
 
Augusto de Campos – Percebemos logo que havia um vácuo na informação cultural. Autores fundamentais, os mais inventivos, tanto da modernidade quanto do passado, eram mal conhecidos e mal traduzidos, quando o eram, entre nós. Era preciso criar um repertório básico à falta do qual os leitores ficavam sem referências. Já em 1960, graças à boa vontade de Simeão Leal, que dirigia o Serviço de Documentação do MEC, saíram as nossas primeiras edições de Pound e de cummings. No Suplemento Literário do JB, Mário Faustino abrigou muitas de nossas traduções, antes mesmo dos livros. Por intermédio dele e de José Lino Grünewald, o JB publicou em página dupla a matéria que organizei sob o título “James Joyce em Finneganscopio”, com traduções minhas e de Haroldo. Eram traduções de “forma e alma”, como cansei de dizer para os ouvidos moucos de críticos e tradutores que, traumatizados com nossas exigências de competência técnica e a artesanal, até hoje não sabem explicar como é que uma elegia barroca de John Donne, traduzida por um “concreto”, foi parar na voz e violão de Caetano Veloso
 
Cultura – Em 2005, você ganhou o Prêmio Biblioteca Nacional, o que significa o reconhecimento da sua obra poética pelo establishement literário brasileiro. Será que seu nome será indicado para a Academia Brasileira de Letras?
 
Augusto de Campos – Prêmios são muito relativos. Dependem da sensibilidade e da integridade das comissões julgadores. Em minha longa vida literária só concorri espontaneamente a dois. Em 1951, ao prêmio Fábio Prado, com o meu primeiro livro, O rei menos o reino: deram-me uma menção honrosa. A láurea foi para Maria da Saudade Cortesão. E em 1954, ao prêmio Mário de Andrade, com o livro Poetamenos (além do grupo de poemas em cores, a série de O poeta ex pulmões e Os sentidos sentidos). Atribuíram o galardão a um livro intitulado Corcel de espumas. Nunca mais me inscrevi em concurso algum. Como no caso da Biblioteca Nacional: uma comissão selecionou o meu livro Não dentre os publicados em 2003 e o premiou “ex officio” como o melhor do ano. Depois de tanta luta, tantos ataques e perseguições que sofri, não podia deixar de aceitá-lo. Recebi-o não como uma consagração, mas como uma reparação. Mas espero jamais ser lembrado por ou para uma instituição como a Academia Brasileira de Letras. Aqui, sou radical. Digo com Satie: “Não basta recusar a Legião de Honra. O essencial é não merecê-la.”
 
Poema-Bomba
 
copy&paste de entrevista com Augusto de Campos no Caderno Cultura de ZH em 25/03/06 by Luis Turiba, jornalista, chefe da Assessoria de Comunicação Social do MinC 
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